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Está frio

28.11.12

São apenas três dias. Mas "passar" as miúdas aos avós transformou-se num saco cheio de roupa, acessórios, livros e ainda faltam os peluches ou bonecas preferidas. Quem será que elas querem levar? A Minnie? A Miffy? A Kitty? A Jasmine ou a Mulan? Bem, isso será decidido logo à noite. Na cabeça, uma data de recomendações que já estão escritas, apesar de serem, certamente, desnecessárias. Mas fico mais descansada. Fazem parte das pequenas rotinas do dia a dia. 

A filha de verão despe tudo. Está sempre cheia de calor. Estão 10 graus lá fora. Hoje, batemos palmas e gritamos "urras" quando ela disse distraída à saída do carro: "Está frio". Só nós é que percebemos a graça disto. Perante os passos apressados dos outros pais nós riamos que nem parvos porque a miúda disse que estava frio. Uau! Foi a segunda vez no ano. Merecia comemoração. São apenas três dias mas eu já tenho o coração apertado. Os filhos mudam mesmo a nossa maneira de ser. Ou talvez a nossa maneira de sentir. Eu quero muito ir. Mas já sofro com a separação. Depois passa, eu sei. E também sei que elas não podiam ficar melhor entregues. É bom para todos. Isto para dizer que não é altura de andar descalça em casa porque está frio. Para dizer que é preciso estudar inglês porque vai haver teste. Para dizer que os dentes têm de ser bem lavados e não fingir que estão bem lavados. Coisas que serão feitas noutro registo, com tempos diferentes.

 

 


 

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publicado às 12:43

"El malão"

27.11.12

Eu prometo que não tenho nada a declarar. Eu prometo que desta vez não vou levar alheiras nem bacalhau. E que vou estar descansada e não sofrer com a humilhação de ser questionada na alfândega se levo algo delicado na mala. Podia sempre responder: "Sou portuguesa". Isso já explicaria a parte cultural e gastronómica da coisa. Mas desta vez levo apenas umas raivas de Aveiro. Não ocupam muito espaço mas farão as delícias de alguém no outro lado do Atlântico. Quando a saudade é muita justifica o "el malão". Amarelo vivo que é para se ver bem ao longe. Conto os dias. Vou ali e já venho. 

 

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publicado às 16:06

A queijada

26.11.12

A semana aqui por casa começou com menos um dente. Pequeno e de leite. Da filha de verão. Aconteceu tudo ontem, com uma manhã chorosa porque iria ficar feia. Como se fosse possível. O pequeno-almoço ficou pela metade. E depois de escovar bem os dentes, lá fomos para a festa do amigo. Com a miúda a fazer-se de doente, por ter um dente preso por um fio. Mas gulosa que é gulosa não resiste a pastelaria fina. E ela olhou para as miniaturas e queixou-se: "Mãe, tenho fome". Era tudo o que eu queria ouvir. As queijadinhas sorriam para ela, ela para as queijadinhas. "O melhor será comeres uma queijada, quem sabe se o dente não cai?", digo. Contente, ela dá a primeira dentada quando eu já estava a olhar noutra direcção. Oiço um "Mãeeeeeeeeeeeee". Sim, é para mim, penso. A minha filha de verão tinha um dentinho de leite cravado na queijada. Que coisa tão linda. Eu com pena de não ter levado a câmara. Fica a lembrança, aqui. A seguir, livre de problemas e, de como ela me dizia de manhã: "mãe, estou nervosa", pôde brincar e jogar, intercalando com as súbitas corridas à mesa da pastelaria fina. Não há nada que uma queijada não faça. A fada dos dentes veio esta noite. A semana começou assim, bem, com um dente a menos e uns ganchos novos no cabelo. Foi a fada. Não fui eu. 

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publicado às 12:43

Bordeaux

20.11.12

Ontem revirei o armário do meu antigo quarto. Encontrei o vestido que usei no baile de finalistas. Na altura foi assim uma coisa a que não liguei mesmo nada. Mas ao olhar novamente para o vestido achei que tinha tudo a ver comigo. Como um pedaço de tecido pode dizer tanto. As miúdas passearam-se com ele pela casa. De tão comprido que lhes ficava, fazia uma cauda que arrastavam. Mais tarde, guardei-o. Não adormeceram sem antes perguntarem ao pai se conhecia o vestido. Claro que o pai já não se lembrava. A minha filha de Verão ouve tudo, mesmo quando não parece ouvir. Perguntou-me se no baile de finalistas eu estava nervosa como naquele dia em que fiz uma sessão fotográfica! Na imaginação dela, vê de certeza um palacete enorme e todos a dançar ao som de música clássica! 
Hoje não há sol e não se passa nada. O problema do desemprego numa profissão como a de jornalista é que se morre um bocadinho. Do que sinto mais falta? Da confusão. De ter uma agenda para seguir todos os dias. De ter a oportunidade de conhecer pessoas surpreendentes. De poder viajar. De poder escrever com rigor para que uma pessoa (basta uma) possa ler e ficar satisfeita com o que leu. Há um mundo que desaparece aos poucos. Não há e-mails. Não há telefonemas. Não se marcam serviços na Agenda. Não se coordenam trabalhos. Não se debatem temas. Não se discute com os colegas.

Acho que fiquei com as ideias. Com o vestido do baile. Bordeaux (que se usa tanto outra vez!). E com a certeza de quem eu sou.  

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publicado às 16:19

David

19.11.12

O meu carro parece uma discoteca. Sigo pela marginal. Atrás de mim, sinais de luzes. Olho pelo espelho e não vejo nada. Pouco depois o mesmo. Lembro-me que a mais pequena hoje calçou os Skechers de luzes... e à medida que se agita na cadeira e bate com os pés no banco, as luzes multiplicam-se em mil cores. O meu carro parece uma discoteca. A música a tocar, elas a ligarem a luz do tecto porque parece que ainda não são suficientes. E eu a pensar no David que nasceu ontem. Ainda não o vi. Só recebi uma foto pelo telemóvel mas tenho a certeza que deve ser ainda mais bonito ao vivo. O David é o primeiro filho de uma amiga de sempre. De repente tenho tudo na memória. A nossa amizade, as nossas férias, a nossa família, o parafuso da minha pasteleira branca a saltar e a bicicleta a desfazer-se pela estrada que nos leva das Azenhas à Praia das Maçãs. Porque há momentos que não se esquecem. Porque há pessoas que não se esquecem. Porque nasceu mais um bebé. Porque a Carla já é mãe. E será uma boa mãe, mesmo que tenha dúvidas. O meu carro parece uma discoteca. Quando o David for mais crescido vai conhecer aqui as DJ's.

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publicado às 19:09

Para mães imperfeitas

16.11.12

Chove muito por aqui. Hoje, as meninas tinham um concerto da parte da tarde. Mas eu vou buscá-las a seguir ao almoço. A ideia de fazerem uma viagem de autocarro com este tempo dá comigo em doida. E quando ouvi na rádio que até dão alerta amarelo, prontamente decidi que não vão. O que vale é que elas ficaram tão ou mais contentes por não irem. Há sempre boas ideias para fazer com a mãe. Eu sei que este é um problema meu. Mas quem não tem problemas? Todas nós, mães, somos, à nossa maneira maravilhosamente imperfeitas. Todas temos dúvidas, umas vezes. Todas temos certezas, outras vezes.   Há dias que estamos mais tristes e não é vergonha dizer isso mesmo: que a mãe hoje está um bocadinho triste. Eu não queria, hoje, ficar num sufoco. Segui o coração. Se calhar até vamos fazer bolachas de manteiga à tarde. E isso é uma coisa que corre sempre bem. 
Por isso, não dramatizem quando vos fizerem um "olhar 33" por qualquer razão. Haverão tantos concertos ainda. Haverá tanto tempo para comer todas as comidas, para trabalhar na perfeição o garfo e a faca, para atar os sapatos, para dormir a noite toda sem se meterem na cama dos pais. Haverá tempo. 

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publicado às 11:00

Palavras

14.11.12

Dei por mim a pensar naquela frase que aprendemos na escola: “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Mas, em alturas como esta, de grandes dificuldades, em que a “imagem” nos cansa a vista e nos parte o coração, as palavras ganham nova força. Ou, pelo menos, deviam ganhar. Hoje, li as palavras de um director-geral aos seus trabalhadores agora que a empresa muda para novas instalações. Percebi mais uma vez a diferença – pela positiva – que as palavras podem ter nas pessoas. De como é mais fácil trabalhar e ganhar novo ânimo quando se ouvem as palavras certas. Com franqueza. E de como são poucos os líderes que o sabem fazer em Portugal. A competitividade também começa por aí: em não tratar as pessoas como lixo.

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publicado às 18:11

"Os cães não dançam ballet"

14.11.12

"Enquanto eu me visto para a aula de ballet, ele olha esperançoso para o meu tutu e para as sapatilhas de ballet e eu sei que ele está a sonhar com o seu nome iluminado".

 

A miúda mais nova ficou em casa outra vez. Faz greve ao colégio mas apenas por estar constipada. Um chá de limão com uma colher de mel ao lado do livro que escolheu para lermos esta manhã, ainda ao pequeno-almoço: "Os cães não dançam ballet", de Anna Kemp e ilustrações de Sara Ogilvie. Uma delícia. Hoje é o terceiro dia de sol de Outono seguido. 

 

"Enquanto esperamos pelo autocarro, penso no meu pobre cão, sozinho em casa, a uivar para a Lua. De repente, tenho uma sensação estranha".

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publicado às 10:04

Infância

08.11.12

Não há água. Digo em voz alta: "Meninas, não há água". Elas estranham. Quando faltou a água, num dia qualquer, elas deveriam ser pequenas demais para correrem para a torneira. Desta vez, correram para a casa de banho. A torneira para cima e para baixo. Nem uma pinga. Um olhar gelado. Nunca lhes tinha acontecido. Deve ter passado um minuto quando correram de volta para o quarto, sem horários: "Ena, não podemos tomar banho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!". É motivo de festa aqui em casa. Mas a água faz tanta falta. E nós pensamos tão pouco nisso. Preparo um jantar caseiro mas very fast-food porque... não há água. Uma coisa má transforma-se numa coisa boa. Eu espero que aconteça o mesmo com o meu estado de recém-desempregada.  Na infância, os problemas são poucos. A mais pequena faz beiço porque o amigo da irmã - com quem ela diz que vai casar - não lhe deu um beijo de despedida à saída do colégio. A mais velha vinha feliz e aos pulos, com as meias enroladas junto aos tornozelos, duas bolachas Maria na mão e uma passa de alperce na boca.

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publicado às 20:00

"Imensamente" qualquer coisa

07.11.12

Querida Isabel,

 

É um bocadinho inacreditável as coisas que disse. Não sei se foi azar, mas ao ouvi-la pareceu-me que escolheu sempre mal as palavras... se calhar não era nada daquilo que queria dizer. Não sei qual a saída que gostei mais. Se a de que os portugueses não podem comer bifes todos os dias (como se comessem) ou aquela em que os portugueses vão ter de aprender a viver com menos (como se vivessem com muito). Um discurso à hora errada. 
Também gostei daquela: "No meu tempo lavávamos os dentes com um copo ao lado. Agora, os meus filhos deixam a água a correr.... " Se isso acontece é porque nunca os ensinou a poupar. E, olhe, que até nos colégios ensinam essas coisas de fechar as torneiras aos meninos. Também disse que não há miséria em Portugal. Na verdade, eu não trabalho nem nunca trabalhei no Banco Alimentar. Mas o que será para si o conceito de miséria? É que eu tenho visto cada vez mais pessoas, pessoas normais, aos caixotes de lixo. Tenho visto pessoas, pessoas normais, a fazerem contas na padaria ao número de bolinhas saloias que levam para casa. E tenho ouvido tantas outras coisas que falam disso mesmo, de miséria, e de desgaste físico e psicológico de aguentar  mais um dia com a corda no pescoço. Se isto não é miséria, venha a peste negra outra vez e dê cabo disto tudo.  Dá a sensação que está a referir-se a uma classe elitista qualquer. E, claro, que quem não pode andar de Mercedes, anda de Renault. Naturalmente. Ouvi-la falar, como falou, dá pena. Pena também porque representa uma instituição que deveria ser credível. E como recomendou aos portugueses pouparem o que não têm, este ano não conte com muitos saquinhos por altura do natal.

Como eu, muitas pessoas preferem ajudar à porta de casa, nas suas comunidades locais, ou simplesmente tornar o dia de um sem abrigo um bocadinho melhor.

 

(ainda a pensar no que a Isabel Jonet disse na Sic Notícias na discussão sobre Estado Social)

 

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publicado às 16:11

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