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Dias cinzentos

28.09.12

Os dias cinzentos são mais melancólicos. Quando cheguei a casa, ele contou-me aquilo que me pareceu ser um reencontro de irmãos. Fiz-me quase desinteressada quando o que eu queria era saber todos os pormenores, cada detalhe. "Mas tocaste à campainha?" Tinha medo de o assustar. Mas como o dia estava melancólico, ele também se enchia de palavras e de figuras que eu imaginava de imediato na minha cabeça. As mesmas imagens que via quando era pequena. Diz que ele estava com bom aspecto. E que até acabaram por ir almoçar ao antigo "Nando" onde o avô Zé todos os dias, sem falta, lia o jornal. Achei tão bonito. Imaginá-los depois dos 50 anos, os dois, ali sentados, entre uma sopa e um bacalhau espiritual. Uma cerveja partilhada. Um café a terminar a refeição. E conversas, palavras soltas entre irmãos que, de igual, têm uma coisa que não consigo descrever. "E ainda tem muitos gatos?", perguntava eu. Os dias cinzentos têm qualquer coisa de trazer o coração de volta. E, hoje, fica um pouco mais da certeza de que a vida dá muitas voltas. E quando menos esperamos podemos ser surpreendidos pela pessoa mais improvável. Eu, pela minha parte, fiquei feliz e continuei a fazer perguntas.

"E a casa? Deve estar um bocado ao abandono, não?"

"E o jardim???"

"Ele, está muito magro?"

"E o Nando é no mesmo sítio?" 

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publicado às 19:07

Outono de verdade

27.09.12

As miúdas estão entregues. É Outono de verdade. Estão 15 graus... temperatura amena para Lisboa. O ceú voltou a estar cinzento, com muitas nuvens. Ameaça chover. Hoje é daqueles dias em que gosto de estar em casa. Não posso dizer isto muito alto. Não faz parte de mim gostar de estar em casa. Mas gosto  especialmente de estar em casa, com este tempo. Atrás de mim, as caixas com a roupa de Outono/Inverno. É o dia perfeito para reorganizar os roupeiros. Outras cores, outras texturas, mais quentinhas. Vou ver o que já serve à Sofia que era da irmã dois anos antes... E outra caixa vou encher de roupas para dar porque a miúda mais nova tem-se revelado altinha e nem tudo o que era da mana lhe serve. 

Há uma calma por aqui. Ontem foi um dia duro, mas hoje é perfeito. O pai às vezes é maluco. Ontem disse-me que íamos dar um passeio a pé. O que haverá de tão estranho nisso? Ok, vamos lá. Não sabia no que me estava a meter. Nem mesmo quando subimos ao ponto mais alto da chamada zona "Alto de Paço de Arcos". Pensei que voltássemos para trás. Tínhamos a cadela rodas baixas connosco. Acabou por ser uma aventura sofrida. Sofrida demais para as minhas pernas, para os meus pés enfiados nuns Adidas velhos a precisar de reforma. Foram só 12 km, com muitos altos e baixos... eu só pensava na anormalidade daquele passeio porque estava a ser tudo menos agradável, nem combinava com a palavra "passeio". Aquilo foi mais um desafio, a passarmos à frente da Prisão de Caxias, rumo ao Jamor... por ali acima e eu a dizer ao pai que por ali íamos ter à A5 e que jamais ia andar a passear à beira de uma auto-estrada, com a cadela raposa pela trela, alheia àquela anormalidade toda.  E os carros a passarem a velocidades acima do permitido. Não sei se era uma qualquer adrenalida mas só já me apetecia chorar. Continuava a andar, a andar, a resmungar ao mesmo tempo. E assim foi quase até perder as forças e já não sentir nada. Três horas. Para chegar ao colégio completamente morta e levar com a energia das miúdas. Ainda bem que hoje tenho roupeiros para organizar. 

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publicado às 12:00

O Jesus!

21.09.12

As notícias em Portugal são uma chatice. Uma desgraça. As notícias em Portugal deixaram de ser notícias. Não há mais novidade depois de termos chegado aqui, perante tanto desemprego, tanta pobreza, tantas greves, tanta contestação social. Está tudo a parar. E eis que no meio do telejornal da hora de almoço – perante uma estranha salada de tofu – oiço a notícia mais idiota do dia: Jesus Cristo parece que tinha mulher. Eu não quero saber. Ninguém fica mais feliz com isso. Quero lá saber do Jesus e da mulher. E se se amavam e se faziam o bem e se já existia tofu… que decadência. Também não quero saber da criança que foi tirada aos pais. Nem do homem que matou duas polícias em França e que depois se entregou. Tudo tão deprimente. Tudo tão aborrecido. E eu com tão pouca paciência para estas muletas do dia-a-dia que chamam de actualidade. Todas as semanas compro um livro. Acho pouco. Como se fosse uma obrigação, se calhar devia ler mais porque me faz sair daqui, desta realidade.

Até a salada de tofu estava chata. Porque o tófu não sabe a nada. E não lhe valeu os temperos. Hoje estou assim: sem sabor. 

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publicado às 14:16

Setembro

21.09.12

Ainda estamos em Setembro. Só estou desempregada desde Setembro. Passaram três semanas, nem isso. Toda a gente regressou aos empregos. As miúdas regressaram ao colégio. Só eu não tive um regresso este ano. Pego no carro. São horas de as ir buscar. Ainda é verão. Vou devagar. Não tenho pressa. O semáforo está verde. Mas eu paro e fico à espera que fique verde. Mas está verde. Eu é que acho que está vermelho. Não sei em que penso. No creme de ervilhas de ontem? Acho que não. Não sei o que cruzava os meus pensamentos. Ao longe, só sei que começo a ouvir apitadelas. Olho pelo espelho retrovisor. A mulher atrás de mim apita e apita e gesticula. E de certeza que me chama nomes feios. Aceno-lhe calmamente e avanço. Mas deu-me vontade de sair do carro. Por um minuto não o fiz. Ela tinha razão para apitar porque afinal eu estava parada no semáforo com ele verde. Mas eu apeteceu-me fazer aquilo a que uma amiga minha chama de traffic rage – porque ninguém tem o direiro de apitar assim, porque ninguém sabe quem nós somos, nem como somos, nem pelo que acabamos de passar. Vou buscar as miúdas ao colégio. 

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publicado às 14:11

Ervilhas

19.09.12

Eu nunca gostei de ervilhas. Nem na infância, nem com 36 anos. E tentaram que eu as comesse de toda a maneira. Dava-me vómitos. A cor, o cheiro… nada. Esta semana estava eu a pensar na vida e no meu novo estado, que tento não pensar. E ocorreu-me: “Vou fazer um creme de ervilhas” para servir ao jantar com pequenas tostas e cubinhos de presunto. Na altura, voltei a não pensar. Voltei a não pensar em como não gostava de ervilhas, como nunca as tinha tocado no prato, como as separava meticulosamente do arroz ou do ovo escalfado. Alguma coisa em mim tinha mudado mas eu não dera conta.

Uma batata, uma cebola, 500 gramas de ervilhas. Tudo na panela com pouco mais de 1 litro de água. A tampa fechada e eu a pensar se a minha filha da Primavera iria comer aquela sopa que, na verdade, seria um creme. Toda passadinha, como os seus 4 anos gostam. Ficou perfeita. Comi uma concha e estava adoçicada porque não abuso do sal e, se calhar, porque é esse o sabor verdadeiro das ervilhas (não sei). A filha da Primavera adorou e dizia no seu português abebezado: “está uma delícia esta sopa” enquanto a filha do Verão reclamava pela cor intensa verde. Ela gosta de sopas mais portuguesas, com coisas lá dentro, grão, pedaços de agrião…
Só dias mais tarde percebi a importância das ervilhas. De como podem ser sinal de mudança na vida de alguém como eu, nesta nova condição de desempregada. Que percebeu que é uma coisa estranha e difícil. Mas que também é uma forma de nos ajudar a conhecer um pouco melhor. A descobrir que, afinal, até conseguimos aprender a fazer boas sopas, depois de anos a comer as sopas da mãe. Mas tempo não falta agora. E há que ocupar a mente de todas as formas. Nem que seja com ervilhas… 

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publicado às 16:17


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