Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Botas da avó Rosa

06.12.12

Eu tinha calçado uns adolfo dominguez de salto alto. E à medida que a noite avançava, pensava na minha mãe. Piada fácil. A minha mãe consegue andar na perfeição em cima de quaisquer saltos. Sobre qualquer superfície. Não há calçada portuguesa que a faça desistir. Estava um frio de rachar naquela noite da inauguração. Fazia sorrisos, cumprimentava algumas pessoas. Mas continuava a pensar nos sapatos. De como Londres não é Lisboa. De como não tem calçada portuguesa. Mas também da dimensão da própria cidade. De como tinha sido uma anormalidade ter calçado aqueles sapatos. À minha volta, todos com uma garrafa de cerveja polaca na mão. Eu sonhava com um copo de vinho tinto. A  malta toda de ténis. Nike atrás de Nike, todos ou quase todos muito sujos. A combinar com o traje. Podiam ser mendigos mas eram artistas. Numa descontração tal que em Portugal seria uma coisa estranha. Ali estávamos. Felizmente havia o Jr para me apoiar. Felizmente haviam as chamadas "botas da avó Rosa" dentro de um saco no bengaleiro. Mais não eram do que botas rasas, quentinhas, com pêlo por dentro, mas muito à velhota. A nossa avó tinha umas assim. Há um momento qualquer em que desço as escadas e penso que nada justifica tanto sofrimento. Atiro com os sapatos, calço as botinhas fofas e volto a subir para a exposição. Só com a gargalhada da minha irmã em pensamento, assim que olhasse para os meus pés. No mundo artítico, há coisas que não têm importância absolutamente nenhuma. E esta era uma delas. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 15:46



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D